Maurício Trindade é um brother de longa data, o cara além de um excelente engenheiro de som é um puta músico! Aqui ele conta algumas de suas aventuras, se liga na aula!

  1. Maurício, conta pra galera do blog a sua formação e a quanto tempo vc está na música.
  2. Desde que nasci, há 38 anos, venho prestando atenção em tudo que é som ao meu redor, seja musical ou não, nos mais diversos ambientes, e desde 1981, estudando música e áudio, passando pelo Conservatório Musical Dr. Carlos de Campos em Tatuí, Unicamp em Campinas, Núcleo Synthesis de Música Eletrônica em São Paulo, Berklee (Boston – USA) entre outros diversos cursos. E na prática, desde 1990 trabalhando com áudio e música para publicidade, por volta de 1.500 peças produzidas entre trilhas musicais, jingles, spots, também trabalhando com captação e amplificação de música ao vivo em eventos, concertos e shows diversos, entre eles, captando, amplificando e mixando mais de 400 concertos de orquestra sinfônica, entre elas: Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo, Orquestra Arte Viva, Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, e outras orquestras e formações musicais diversas arregimentadas para ocasiões e eventos especiais.
  3. Qual a diferença principal de um engenheiro de som que trabalha com música pop, para o que trabalha com música erudita?
  4. A principal diferença: fidelidade à composição. Com música erudita, o áudio precisa ser fiel a composição, há não ser nos estilos mais contemporâneos, porém, a composição é o guia, no pop, o engenheiro pode criar mais, processar o som, recriar o estilo em alguns casos, e por aí vai a criatividade. Explicando: penso que qualquer que seja o estilo trabalhado pelo engenheiro, é muito importante “ouvir” o som antes dele existir, para saber onde se quer chegar, e no caso da música erudita para “ouvir” antes, é muito importante o engenheiro estudar música, história da música, harmonia, acústica, estudar os diversos estilos de composição, para entender o ponto de vista do compositor, do intérprete e principalmente do regente no caso de orquestras e formações com maestro, que é o primeiro responsável pela mixagem, o engenheiro precisa ter conhecimento da situação para captar o som de maneira fiel à “mixagem” do regente, fiel à regência do maestro, é importante que o engenheiro de áudio acompanhe os ensaios lendo a grade musical da composição com todos os instrumentos, a mesma grade que serve de guia para o maestro, para entender e interpretar a composição sem interferir na regência e na interpretação da orquestra, além de ser fiel aos timbres de cada instrumento. Às vezes a composição tem um acorde com cinco notas por exemplo, e cada nota é tocada por um instrumento ou naipe de instrumentos, o engenheiro precisa entender cada parte desse processo para saber de onde vem aquele resultado sonoro final e como captar, amplificar ou mixar aquele som, sem tirar o balanço do som criado pelo compositor.

No caso de grupos eruditos menores, sem maestro, importante acompanhar os ensaios também, como se fosse mais um músico no grupo, entender as nuances de interpretação do grupo e seu estilo de intepretação, seu timbre, porque pode acontecer do engenheiro mudar essa interpretação se não conhecer a composição e o potencial sonoro da formação instrumental.

  1. Qual foi a maior roubada que você já pegou até hoje, e qual foi a situação mais legal?
  2. Não sei se chamaria de roubada, e foi na raça, fui contratado pela Loudness para este trabalho, e foi assim: no estádio do Pacaembu em São Paulo, 50.000 pessoas assistindo no estádio e outras tantas on line num sistema de transmissão ao vivo, coral de 1.200 vozes, 52 canais de captação e mixagem, e muita, muita chuva. Os microfones iam falhando aos poucos, e a equipe técnica (verdadeiros heróis) ia cobrindo cuidadosamente os mics para não molhar e não perder a captação, trocando de lugar os que ainda estavam funcionando para melhor captação do som das vozes, e muitos tiveram que ser desligados e retirados, alguns pifaram, tudo para que conseguissemos captar o som do imenso coral, tudo acontecendo ao mesmo tempo, ao vivo e com mais ou menos 80.000 pessoas sintonizadas naquele mesmo momento musical e inesquecível. Mesmo com tudo isso foi emocionante, todos puderam ouvir e entender o que o coral estava cantando.

Todas situações sonoras são legais, entre elas me lembro agora de uma situação que aconteceu em Campos do Jordão, no Festival de Inverno, Orquestra Jazz Sinfônica e Hermeto Pascoal. Num solo de bombardino, o Hermeto se distanciou do microfone porque gostou daquele timbre misterioso da mistura do som acústico e do amplificado, da mistura da acústica da sala com o som amplificado pelo P.A. – como já havia trabalhado com ele em outras situações, sabia que era aquele som distante que ele curtia naquele momento, tentei avisar o roadie que estava no palco pelo intercom, mas não deu tempo, o roadie, excelente profissional, foi rápido e correu para aproximar o microfone da tuba, era a responsabilidade dele no momento, que de tão atento, não percebeu a nuance pretendida pelo Hermeto, mas aí foi muito legal, o Hermeto entendeu que o roadie não queria atrapalhar e sim ajudar porque da posição que o roadie estava no palco, não ouvia o mesmo resultado sonoro que o Hermeto e a platéia, então, o roadie interpretou aquela situação como falha na posição do microfone, e correu para aproximar o microfone e então surgiu um novo e espantoso timbre de bombardino que o Hermeto, a princípio se irritou porque estava curtindo o som anterior, mas aí começou a emitir um som como se estivesse falando palavrões através do bocal da tuba, algo tipo: “orra meu eu tava curtindo aquele som” isso num ritmo musical super interessante, e o Hermeto começou a gostar daquilo e seguiu o solo empolgado e virtuoso, a platéia foi ao delírio, jamais esse resultado sonoro teria acontecido se não tivesse sido assim.

  1. Qual foi o maior benefício que você tirou com a chegada das consoles (mesas de som) digitais?
  2. Chegar no trabalho com presets, input lists já preparados, e assim chegar mais rapidamente ao resultado sonoro desejado.
  3. Já sei o que você vai falar Maurício, “perguntinha manjada essa heim Lampadinha?” Mas não tem jeito. Então lá vai: O que você aconselha pra galera que gostaria de seguir o seu caminho?
  4. Primeiro tem que amar fazer isso, estudar áudio, música, acústica, os diversos tipos de microfones adequados para os diversos timbres musicais, se não gostar de estudar, ouvir, ouvir muito, analisar tudo que ouvir, se conseguir ler partitura melhor ainda, ouvir lendo a partitura, assim, irá entender qual a “mixagem” pretendida nas regências dos maestros e nas interpretações de grupos musicais que trabalham sem maestro, importante ouvir cada instrumento acusticamente, chegar perto do instrumento, andar em volta dele para ouvir as nuances de projeção sonora, aguçar os sentidos através do som acústico de cada instrumento. Se tiver no estúdio, sair da técnica e ir lá perto do instrumento musical, ouvir sem a interferência do microfone, para que o cérebro e o sentido entendam como acontece aquele som naquele determinado ambiente para saber o que será necessário fazer para que aquele som envolva os ouvintes, seja qual for a finalidade daquele trabalho.